Os imperfeccionistas

19 de março de 2012 Deixe um comentário

A gente já viu esse filme. Um correspondente decadente. Uma redatora maluca que ninguém reconhece o talento. Um obituarista que vira editor de cultura não pelos próprios méritos. Uma temida diretora de redação.  Demissões. Rivalidade.  A verdade é uma só: não apenas o que escrevemos, mas nós, jornalistas, também somos clichês. Essa é uma das graças do livro “Os imperfeccionistas”, de Tom Rachman, que conta a trajetória de um grande jornal italiano (com redação americana). Desde a fundação, a partir do sonho de um milionário, até fechar as portas, decadente, 60 anos depois. É a história de muitos jornais que não conseguiram acompanhar os novos tempos, a velocidade das informação. Mas é principalmente uma história sobre jornalistas, são 11 personagens, de todos os tipos, e suas neuroreses na redação e na vida pessoal. Há um único leitor entre os personagens enele que o autor destila sua principal crítica. Trata-se de uma leitora que lê tão devagar, mas tão devagar, devorando cada centímetro do jornal, que está uns 10 anos atrasada com a leitura. Ela nunca conseguirá colocar em dia a leitura, mas não desiste, tem uma pilha amarelada de jornais lidos e outra, igualmente amarelada, de jornais que ainda não foram lidos. Um toque de ironia, em tempos de leitores que mal consomem as manchetes e vão direto para internet….O livro não tem uma narrativa linear. São histórias que se cruzam no jornal, este o principal personagem de Os Imperfeccionistas, leitura despretenciosa e saborosa.

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Os bichos de Palermo

27 de fevereiro de 2012 Deixe um comentário

O zoológico de Buenos Aires é um dos passeios mais divertidos para se fazer em família na capital portenha. Confesso que nós, adultos, adoramos.

Dizem que Borges batia ponto para lá para ver o tigre de Bengala. O lugar é inspirador.

Lá os bichos moram em mini-palecetes indianos. É muito curioso.

O urso polar tem um piscina só pra ele e adora dar show para os visitantes, espreguiçando-se ao sol depois de um mergulho.

E não há risco de se dar comida indevida aos bichos, porque a administração do zoo vende uma ração apropriada, permitindo que as crianças possam passar por essa experiência maravilhosa, sem prejudicar os bichinhos.

E o lugar é lindo! Um passeio delicioso, vale muito a pena!!!!!

Cadê a floricultura?

24 de fevereiro de 2012 2 comentários

Um estranho prédio verde amerelo colado ao que sobrou do Cine Teatro Ouro Verde.

O calcadão vazio. Apenas ruínas do que já foi um local cheio de vida, de conversas animadas em torno dos cafés, das bancas de jornais, sorveteria, grill e aquela floricultura tão linda…

Do outro lado da rua, os velhos meio acuados, pouco a vontade para usar aquele espaço remodelado e impessoal.

Faz apenas 10 anos que eu saí de Londrina. Seria tanto tempo assim para apagar as marcas das história da cidade?

E o Ouro Verde, há o Ouro Verde…

O que aconteceu com Londrina? 

Foi dia melancólico. Sem que tivessemos combinado, encontramos nossos irmãos Regina e Dirceu, expatriados como nós, e percorremos, incrédulos, aquele trecho que já foi o ponto mais democrático da cidade.

Gente, cadé a floricultura que havia ali?

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George Orwell na pior em Paris e Londres

8 de fevereiro de 2012 Deixe um comentário

O que vem primeiro: o vagabundo ou a miséria?

8 de fevereiro de 2012 Deixe um comentário

Lembram do caso do catatador de papel que achou o bebê em uma caçamba de lixo?

 

Além da crueldade com o recém-nascido, eu fiquei muito impressionada com a história do heroi daquele episódio. Fazia pouco tempo que ele morava nas ruas. Sem emprego, separado da mulher, ele estava prestes a se tornar um morador de rua. Naquele momento, ainda tinha roupas decentes e me lembro que carregava uma mochila em bom estado. Mas quanto tempo isso duraria? Dali à mendicância, não faltaria muito tempo. Naquele dia em desejei muito que, além de ter salvo o bebê, também ele tivesse sido salvo. Alguém poderia se interessar em ajudar uma pessoa que fora capaz de um gesto tão grandioso. A família poderia procurá-lo. Que tenha sido assim. ..

Lembrei de outra história.

Assim que o rapaz me viu, envergonhado, pediu para não ser filmado. Eu era repórter e fazia uma matéria em um albergue de Londrina. Ele me contou que era artista plástico, que havia se separado da mulher, que a situação estava difícil. Mas ainda não havia perdido a altivez, não se via na condição de um sem-teto. Acredita que poderia recuperar a vida digna que um dia já tivera. Essa história aconteceu há uns 15 anos e desde então eu sempre pensei que há um limite, uma linha entre a pobreza e mendicância. E que isso não acontece de uma hora para outra.

Primeiro a pessoa se perde da família, por briga ou pelo desejo de partir e buscar algo melhor, depois de um tempo ela perde o emprego e não consegue se recolocar, vai fazendo bicos. Mas quanto mais tempo ela passa sem conseguir uma oportunidade, mais ela se distancia dela, porque a aparência vai piorando: não se alimenta bem, não corta o cabelo, não troca as roupas…Quem dá emprego a alguém nessas condições? Então começa a dormir em albergues e daí, para as ruas, a distância é curta.

Por isso fiquei tão impressionada com o filme A procura da felicidade, estrelado por Will Smith e seu filho. Trata-se de uma história real, onde um pai luta desesperadamente conseguir evitar que ele, e o filho, se tornassem moradores de rua. Trabalha em dois empregos, um deles sem ganhar um tostão, como uma espécie de estagiário, um treinamento cruel onde dezenas de pessoas têm que bater uma meta absurda de vendas para, só então, conquistar a única vaga. Enquanto isso ele e o filho têm que chegar cedo à fila do albergue para não ter que dormir na rua. Coisa que nem sempre é possível. A história é real e o final feliz. Mas a grande maioria não consegue e cruza a linha da pobreza absoluta. Sempre que vejo um andarilho pela estrada penso que um dia ele teve família, teve trabalho, teve um teto. Há sempre um infortúnio em cadeia. Quanto mais lhe viram as costas, mais rápido ele se tranforma em um marginalizado. Não é um marginal, como acreditam alguns, que constuam discursar que “essa gente é preguiçosa e não quer trabalhar”. Não foi o vagabundo que feio primeiro, foi a miséria. E, principalmente, as portas fechadas.

George Orwell na pior em Paris e Londres

7 de fevereiro de 2012 Deixe um comentário

“Nunca mais vou pensar que todos os vagabundos são patifes bêbados, nem esperar que um mendigo se mostre agradecido quando eu lhe der uma esmola, nem ficar surpreso se homem desempregados carecem de energia, nem contribuir para o Exército da Salvação, nem empenhar minhas roupas, nem recusar folheto de propaganda, nem me deleitar com uma refeição em um restaurante chique”.

A frase é de George Orwell, mais conhecido pelos livros  ”A revolução dos bichos” e ”1984″ , foi extraída do interessantíssimo “Na pior em Paris e em Londres – a vida de miséria e vagabundagem de um jovem escritor no fim dos anos 1920″. Livro de estreia do autor, que na vedade se chamava Eric Arthur Blair, foi publicado em 1933 e oferece uma leitura deliciosa, mistura entre jornalismo e realidade, que alguns chamariam de jornalismo literário e outros de jornalismo de vivência. O então jovem escritor relata suas aventuras pelas capitais francesa e inglesa, com pouco ou nenhum dinheiro no bolso. Nessa codição, ele conhece personagens memoráveis, que sua verdadeira condição abastada, não permitiria. Gente que, na crise do pós-guerra, sobrevivia graças a pequenos bicos ou trabalhos escravizantes, e bebia muito para espantar a fome e frio. Gente que, quando conseguia pagar por um quarto, tinha de sujeitar a lugares imundos e habitados por centenas de percevejos. Não raro havia professores, músicos, vidas profundamente alteradas pela guerra, aceitando trabalhar em condições desumanas por míseros trocados.

O plano inicial de Orwell em Paris era trabalhar como professor de inglês. Funcionou por um tempo, mas ele acabou perdendo os alunos e foi penhorando as roupas, o que era quase um suicídio no inverno parisisense, para poder comer. Como todo estrangeiro, restou o trabalho nos restaurantes. Mas não o trabalho de garçom, um luxo para poucos, mas o de plongeur, um lavador de pratos que é na verdade um  faz-tudo, que permanecia confinado nos porões dos restaurantes de hotéis chiques, de 15 a 20 horas por dia, trabalhando em condições precárias, sem ventilação e higiene.

Quanto mais fino o hotel, relata o escritor, pior o que acontece onde a visão do cliente não alcança. O livro foi bastante controverso, pois levantou uma questão indigesta para os franceses, cuja bela apresentação dos pratos esconderia, ao menos naquele tempo e nos lugares onde Orwell trabalhou, uma inescrupulosa falta de cuidado na manipulação dos alimentos. O escritor testemuhou que, quanto mais enfeitado o prato, maior seria o contato de mãos nem sempre limpas para ajeitar os alimentos e até lambidas para o cozinheiro atestar o sabor de um filé.

Em Londres, o jovem escritor viveu uma experiência ainda mais radical: a mendicância. Passou a dormir em albergues e descobriu que os miseráveis na capital inglesa mantinham um bem organizado esquema de rodízio para não ter de passar a noite ao relento. Eles traçavam um cronograma de albergues e faziam um rodízio entre eles, de maneria a dormir uma vez por mês em cada um, conforme permitia a lei. Assim, uma marcha de mendigos todos os dias, perambulava pelas ruas, a caminho do próximo pouso. Eram experiências humilhantes. Em alguns albergues, eram tratados como ratos, trancados durante à noite, tornando o ambiente, já pouco ventilado, ainda mais sufocante. As camas, quando não se dormiam no chão, eram coladas, fazendo com que muitos tivessem que de defender de investidas sexuais noturnas. Orwell encontrou muitos personagens pelo caminho, cujas histórias de vida mudaram completamente a perspectiva do autor. Com olhar crítico para a sociedade, misturado à massa marginalizada nas grandes capitais, Orwell oferece um olhar demistificador e crítico sobre a miséria, a partir da perspectiva privilegiada de quem viveu na pele, ainda que por pouco tempo, essa realidade. Sabe-se que, em Londres, Orwell mantinha um apartmento para dar umas escapadas e recuperar o fôlego para vivenciar essa experiência tão desvatadora. Ainda assim, é um relato contundente. Apesar da evidente ficcionalização, Na pior na Paris em Londres é um livro muito interessante tanto sob o apecto jornalístico quanto literário, uma ousadia que faz falta nas atuais obras sob encomenda para sucessos fulgazes no mercado editorial.

Na pior em Paris e Londres.

Companhia das Letras, 2006.

Existe um tempo mínimo para reler uma obra?

5 de fevereiro de 2012 Deixe um comentário

Será que é preciso deixar as ideias decantando em nosso subconsciente? Será que é preciso distanciamento? Será que é preciso estar em outra fase da vida? E o que fazer com a lista imensa de livros que só darei conta de ler em outra vida?

Eu ainda não tive coragem de reler Minha Razão de Viver, do Samuel Wainer, porque fiquei tão encantada por esse livro na faculdade de jornalismo que tenho medo de estragar essa aura…

Já Paris é uma festa, do Hemingway, estou relendo com menos de um ano (tudo bem que tem o antes e depois de minha viagem a Paris para justificar).

E agora, acabo de pegar por acaso A cabra vadia, do Nelson Rodrigues (tive minha fase aficcionada por ele, li toda A vida como ela é) e fiquei espantada! Vontade de devorar, como se fosse  primeira vez… Vou ter que reler…mas e a pilha novinha que está em minha cabeceira?

Minha filha, que tem 12 anos, já releu todos os livros do Harry Potter (e olha que eles têm 600, 700 páginas) e curtiu muito a segunda leitura, tão entusiasmada como se nunca tivesse lido as aventuras do bruxinho de Hogwarts….

Acho que não há resposta, creio que o livro nos chama, sem que isso tenha qualquer sentido místico. Uma boa pedida para incentivar essa prática é o site releituras, você já acessou? É muito interessante, clica lá: www.releituras.com.br

CategoriasJornalismo, Literatura
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